quinta-feira, 7 de março de 2019

Processos Expressivos e os Sapatos Vermelhos


Pensando na conversa da aula de ontem sobre Processos Expressivos, me lembrei da História dos “Sapatos Vermelhos”, que me inspirou para a criação do meu primeiro solo da “Trilogia do Feminino”, “Mulher Selvagem”. Essa história está no livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, da pesquisadora Clarissa Pínkola Estés. Em meu trabalho, escrevi a seguinte  adaptação desse conto:


Como foi que fiquei assim?

Os meus sapatos vermelhos eu mesma fiz com os retalhos que encontrei pelas ruas onde vivi. Eram o orgulho, a honra e a sobrevivência dessa pobre menina, durante o inverno.
Um dia vi uma carruagem dourada se aproximando. Ela parou do meu lado e de dentro dela uma velha senhora me convidou para ir com ela. Fui. Acreditei que o que ela me ofereceria seria muito melhor do que o que eu tinha!

Chegando na mansão da velha havia roupas e sapatos novos para mim. Tudo era bege claro. Me troquei e quando me dei conta, ela, a senhora, havia jogado os meus sapatos vermelhos na lareira.
Não deu para salvar nada. Restaram as cinzas. Cinzas e “beges claros”.
Ela quis que eu fizesse a primeira comunhão. Saímos para comprar sapatos novos para este evento tão importante para ela.

Entramos em uma loja onde havia um lindo par de sapatos vermelhos. Era tudo o que eu queria, mas a senhora nunca permitiria. Que que eu fiz? Na hora de embalar, troquei os sapatos beges horrorosos que ela havia comprado para mim, pelos vermelhos. Pronto. Estava feito.
Chegado o grande dia, na hora de entrar na Igreja, pus os meus sapatos vermelhos e entrei triunfante! A Igreja se calou. Em seguida as pessoas começaram a sussurrar coisas infames a meu respeito: “mulher...artista...vagabunda...” Até que alguém que nunca pecou atirou a primeira pedra. Começaram a gritar para que eu saísse dali.

Só que ao invés de correr eu comecei a dançar. E dancei linda e poderosa uma dança que só eu poderia fazer. Quanto mais gritavam, mais eu girava, pulava e gostava. Eu não pertencia àquele mundo hipócrita.

Desci a escadaria da Igreja aos saltos e fui dançando por toda a cidade, em cada canto, em cada gueto, livre!

Até que quis parar e vi que não podia. Não mais. Não conseguia mais parar. Eram os sapatos que dançavam agora. Descontrolados. Eu apenas os obedecia. Eles me levaram em direção à floresta, rumo à casa de um carrasco. Pensei ser a minha salvação, pois se ele cortasse as fivelas eu me veria livre dos sapatos! Só que não deu certo. Eu estava grudada neles. A verdade é que eu já pertencia a eles há muito tempo. Eu estava exausta.

O carrasco olhou para mim. Ele era forte e cruel, é verdade. Mas era ele  quem estava do meu lado.
Eu não tinha escolha. Eu não tive escolha. Ele tinha um machado nas mãos. Foi quando olhei no fundo dos seus olhos e lhe dei uma ordem :

- “CORTA OS MEUS PÉS.”


A reflexão que fiz relacionando o conto dos sapatinhos com os processos expressivos foi a seguinte:

Os sapatinhos vermelhos foram um processo expressivo da menininha. E foi um processo expressivo muito profundo, pois estes sapatos representavam o caminhar da menina no mundo.
Quando a velha senhora queimou os sapatos isso foi uma castração. Foi um processo de mutilação profundo.

A essência expressiva da menina foi negada, sabotada, anulada.
A potência expressiva (mulher selvagem) foi jogada para o mais fundo do inconsciente. Foi proibida. Mas desse inconsciente, os sapatinhos vermelhos irradiavam uma espécie de sinais magnéticos que atraíam como ímãs situações e objetos que estivessem relacionados a eles. Era um pulso profundo de vida e morte que irradiava do fundo da menina, a partir do desejo dos sapatos.

Hoje compreendo que foi por esse ímã profundo que os sapatos vermelhos foram atraídos e ficaram grudados nos pés da menina. E a fizeram dançar até a “morte”. Essa morte foi a auto-mutilação, quando a menina pediu ao carrasco para cortar seus pés.

E essa foi a minha história do livro. Com o arquétipo da Mulher Brava.
Eu chamaria também de “A Sabotadora”.

20/2/19

foto: Guto Muniz, do meu espetáculo solo de dança e teatro "Mulher Selvagem"

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