Pensando na conversa da aula de ontem sobre Processos
Expressivos, me lembrei da História dos “Sapatos Vermelhos”, que me inspirou
para a criação do meu primeiro solo da “Trilogia do Feminino”, “Mulher
Selvagem”. Essa história está no livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, da
pesquisadora Clarissa Pínkola Estés. Em meu trabalho, escrevi a seguinte adaptação desse conto:
Como foi que fiquei
assim?
Os meus sapatos
vermelhos eu mesma fiz com os retalhos que encontrei pelas ruas onde vivi. Eram
o orgulho, a honra e a sobrevivência dessa pobre menina, durante o inverno.
Um dia vi uma
carruagem dourada se aproximando. Ela parou do meu lado e de dentro dela uma
velha senhora me convidou para ir com ela. Fui. Acreditei que o que ela me
ofereceria seria muito melhor do que o que eu tinha!
Chegando na mansão da
velha havia roupas e sapatos novos para mim. Tudo era bege claro. Me troquei e
quando me dei conta, ela, a senhora, havia jogado os meus sapatos vermelhos na
lareira.
Não deu para salvar
nada. Restaram as cinzas. Cinzas e “beges claros”.
Ela quis que eu
fizesse a primeira comunhão. Saímos para comprar sapatos novos para este evento
tão importante para ela.
Entramos em uma loja
onde havia um lindo par de sapatos vermelhos. Era tudo o que eu queria, mas a
senhora nunca permitiria. Que que eu fiz? Na hora de embalar, troquei os
sapatos beges horrorosos que ela havia comprado para mim, pelos vermelhos.
Pronto. Estava feito.
Chegado o grande dia,
na hora de entrar na Igreja, pus os meus sapatos vermelhos e entrei triunfante!
A Igreja se calou. Em seguida as pessoas começaram a sussurrar coisas infames a
meu respeito: “mulher...artista...vagabunda...” Até que alguém que nunca pecou
atirou a primeira pedra. Começaram a gritar para que eu saísse dali.
Só que ao invés de
correr eu comecei a dançar. E dancei linda e poderosa uma dança que só eu
poderia fazer. Quanto mais gritavam, mais eu girava, pulava e gostava. Eu não
pertencia àquele mundo hipócrita.
Desci a escadaria da
Igreja aos saltos e fui dançando por toda a cidade, em cada canto, em cada
gueto, livre!
Até que quis parar e
vi que não podia. Não mais. Não conseguia mais parar. Eram os sapatos que
dançavam agora. Descontrolados. Eu apenas os obedecia. Eles me levaram em
direção à floresta, rumo à casa de um carrasco. Pensei ser a minha salvação,
pois se ele cortasse as fivelas eu me veria livre dos sapatos! Só que não deu
certo. Eu estava grudada neles. A verdade é que eu já pertencia a eles há muito
tempo. Eu estava exausta.
O carrasco olhou para
mim. Ele era forte e cruel, é verdade. Mas era ele quem estava do meu lado.
Eu não tinha escolha.
Eu não tive escolha. Ele tinha um machado nas mãos. Foi quando olhei no fundo
dos seus olhos e lhe dei uma ordem :
- “CORTA OS MEUS PÉS.”
A reflexão que fiz relacionando o conto dos sapatinhos com
os processos expressivos foi a seguinte:
Os sapatinhos vermelhos foram um processo expressivo da
menininha. E foi um processo expressivo muito profundo, pois estes sapatos
representavam o caminhar da menina no mundo.
Quando a velha senhora queimou os sapatos isso foi uma
castração. Foi um processo de mutilação profundo.
A essência expressiva da menina foi negada, sabotada,
anulada.
A potência expressiva (mulher selvagem) foi jogada para o
mais fundo do inconsciente. Foi proibida. Mas desse inconsciente, os sapatinhos
vermelhos irradiavam uma espécie de sinais magnéticos que atraíam como ímãs
situações e objetos que estivessem relacionados a eles. Era um pulso profundo
de vida e morte que irradiava do fundo da menina, a partir do desejo dos
sapatos.
Hoje compreendo que foi por esse ímã profundo que os sapatos
vermelhos foram atraídos e ficaram grudados nos pés da menina. E a fizeram
dançar até a “morte”. Essa morte foi a auto-mutilação, quando a menina pediu ao
carrasco para cortar seus pés.
E essa foi a minha história do livro. Com o arquétipo da
Mulher Brava.
Eu chamaria também de “A Sabotadora”.
20/2/19
foto: Guto Muniz, do meu espetáculo solo de dança e teatro "Mulher Selvagem"
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